• Silvano Formentin

A história da peste negra em Veneza

A epidemia que assolou a Europa no século XVII devastou a cidade de Veneza - mas também contribuiu para o surgimento da quarentena, técnica de contenção utilizada até os dias de hoje.

Veneza no século 15

O mundo infelizmente já passou por diversas epidemias, e a Itália foi bastante afetada por elas - incluindo a Peste Negra, considerada a maior de todas. Veneza, cidade portuária, acabou se tornando a porta de entrega para essa e diversas outras doenças, trazidas das mais diferentes partes do mundo pelos viajantes.


No artigo de hoje, eu vou mostrar como a Peste Negra se desenvolveu na cidade - mas também como os Venezianos conseguiram conter a disseminação da doença, se tornando um exemplo para o restante da Europa. Confira!


Como a epidemia chegou em Veneza?


Vários historiadores sugerem que a origem da peste negra se deu na Ásia, mais especificamente na China. Sua inserção na Europa teria ocorrido por meio de caravanas comerciais que se dirigiam para cidades portuárias do Mar Mediterrâneo, como Gênova e Veneza, lugares esses onde havia uma intensa atividade comercial e grande concentração de pessoas.


Inicialmente, os principais agentes transmissores da doença eram os ratos e as pulgas, que se proliferavam com facilidade tanto nos navios, quanto nas cidades e nos vilarejos menores em razão das condições precárias de higiene.

Posteriormente, na fase mais crítica da pandemia, a contaminação ocorria por via aérea. Por meio de espirros ou tosse, a doença acabava sendo transmitida pelo ar.


A peste era chamada de negra pois causava manchas negras na pele das pessoas, consequência de infecções. Essa peste também ficou conhecida como bubônica por provocar bulbos, que são inchaços infecciosos no sistema linfático, e que apareciam principalmente nas regiões das axilas, virilha e pescoço, antes de se espalhar pelo corpo todo.


Em um período de cinco anos, um terço da população de toda a Europa morreu, o que significa que a peste negra fez entre 155 e 220 milhões de vítimas, e por isso é até hoje considerada a epidemia mais mortal da história.


Tratamentos e precauções


No auge dessas mortes, é claro que algumas medidas foram tomadas para evitar a proliferação dessa doença – algumas certas, e algumas erradas, afinal, estamos falando de uma época em que a medicina não era avançada e a falta de informação prejudicava bastante o tratamento dos enfermos.


Durante a peste negra, as cidades contratavam médicos para tratar os doentes. Nem sempre estes eram habilitados ou possuíam estudos de medicina, mas eram aceitos com a esperança de que trariam a cura.

Os médicos da peste, como ficaram conhecidos, vestiam uma máscara feita de couro e com um bico que se assemelhava ao de um pássaro. Dentro desse bico eram colocadas ervas aromáticas, a fim de prevenir o contágio, mas que também ajudavam a suportar o cheiro ruim vindo de tantos cadáveres.


Muitas medidas eram tomadas na Europa inteira e em Veneza, na esperança de reduzir a contaminação e acabar com a peste. Por exemplo, era muito comum acender fogueiras e queimar ervas a fim de que a fumaça levasse a doença embora ou banhar os doentes com a água salgada da laguna.


Além disso, os médicos recomendavam a ingestão de substâncias doces ou amargas, como absinto, vinagre ou um pedaço de âmbar cinzento - esse último era exclusividade dos muito ricos e consistia na secreção retirada do intestino de uma baleia.


Isso, é claro, não funcionou, mas foi em Veneza que surgiu uma prática utilizada até os dias de hoje em situações parecidas: a quarentena.


O termo vem do italiano quaranta giorni, ou, quarenta dias. Qualquer navio mercante que parasse em Veneza era inspecionado antes de desembarcar na cidade. Se uma única pessoa fosse suspeita de estar doente, toda a tripulação ficava isolada por 40 dias.


Essa técnica mais tarde começou a ser adotada em diversas cidades portuárias e foi considerada uma das medidas mais eficientes para conter a peste.


Além disso, foi também em Veneza que surgiram os primeiros lazarettos do mundo. Os lazarettos eram hospitais isolados, ou hospitais-colônia, espaços para onde os doentes eram enviados.

O Lazaretto Vecchio, por exemplo, foi construído em 1403, numa ilha isolada. Muros altos, grandes quartos e camas que abrigavam três ou quatro doentes de cada vez. Se você fosse mandado para lá, tinha 90% de chances de morrer.


O Lazaretto Vecchio funcionou até 1630, não só para vítimas da peste negra, mas também como um leprosário. Acredita-se que os números chegavam a 500 mortos por dia.


Mesmo com a taxa de mortalidade tão alta, o ato de isolar os doentes do restante da população se mostrou muito eficiente.


Superação e esperança


É coerente afirmar que muitas das medidas assertivas tomadas para conter a Peste Negra foram descobertas através de tentativa e erro - muitas tentativas e vários erros, diga-se de passagem.


Ainda assim, os acertos nos trazem benefícios até os dias de hoje. Atualmente, uma das medidas mais eficazes na contenção de diversas doenças é o isolamento - e todos nós vivenciamos isso durante a crise do COVID-19.


Por isso, devemos todos agradecer aos venezianos que, mesmo sem conhecimento técnico, descobriram essa medida e salvaram a vida de tantas pessoas pelo mundo todo.


Me conte nos comentários se você já sabia os detalhes desse acontecimento histórico que afetou o mundo todo! Lembre-se também de cadastrar seu e-mail aqui embaixo, para receber as novidades do blog e ficar por dentro de todos os conteúdos sobre história e cultura da Itália!


Arrivederci!



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