• Silvano Formentin

Homenagem aos imigrantes italianos

Povo de duas pátrias, ítalo-brasileiros, guerreiros, "brava gente". Auguri!


O ano era 1914, o dia era 30 e o mês era setembro. Faz quase um século que, nessa data, a jovem italiana Catarina Gislon Formentim e o jovem italiano Tiziano Formentim, meus bisnonos, ambos vindos para o Brasil fugindo da pobreza que assolava a Itália, ganharam de Deus um lindo e pequenino presente: uma bebezinha que se chamaria Antonia.



Pra que tenhamos mais facilidade de compreender a quanto tempo isso aconteceu, devemos nos situar na história. Dois anos antes, em 1912, o mundo vivia a tragédia do naufrágio do Titanic. Um ano antes, ocorreu a inauguração da primeira linha de montagem industrial, pelo empresário Henry Ford.


Três meses antes, em junho de 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, daria início a Primeira Guerra Mundial. Um ano depois, Albert Einstein publicaria a Teoria da relatividade Geral e ainda levaria 16 anos para o mundo ver a primeira Copa de Mundo de Futebol.


Depois de séculos de uma considerável paz e prosperidade intelectual em todo o mundo, o ano de 1914 marcaria o início de uma reviravolta entre as nações, estava por vir o século em que o homem inventaria a Penicilina, a televisão, o computador, o transplante de coração, a clonagem de seres vivos, a descoberta do DNA, a energia nuclear, a viagem do primeiro homem à Lua, a internet, o Laser, a fibra ótica, o telégrafo, o Raio-X, e mais uma infinidade de coisas, muitas delas, vindas, infelizmente, das duas Grandes Guerras Mundiais.



Em meio a tudo isso, estava Antonia. Que, enquanto homens guerreavam e cientistas mudavam o mundo, brincava de pegar, de esconder, de bocha, “meninos e meninas todos juntos”, como ela mesma relatou para mim em uma espécie de “entrevista” que eu fiz com ela na ocasião do seu aniversário de 100 anos em 2014.


Durante a conversa ela nos mostrou uma brincadeira de criança e eu, meus primos e meu tio repetimos com ela o seguinte passa tempo: “tira téla, hó tirata, fá un gropo, lo vó fato, fa un’altro, lo faró, vérdi la porta que passeró”.


É uma espécie de brincadeira de roda, os mais velhos (bem mais) sabem como é. Ela falava, a gente respondia. Foi a primeira vez que brinquei de roda com minha nona eu acho. Ela esperou 100 anos pra isso!


Acredito que Antônia era uma criança muito alegre, visto que sempre expressava um belo sorriso, sempre feliz, apesar da perda de um filho, José, meu pai. Seu sorriso enfraqueceu um pouco, mas ainda acho que essa alegria de viver é que dava a ela o poder e a saúde para ter uma vida tão longeva, viveu até os 101 anos.


Fico imaginando ela namorando com meu nono, que não conheci, olhando para ele com esse sorriso encantador... deveria ser uma cena linda. Os dois de mãos dadas, isso é claro com a permissão de meus bisnonos, por que naquela época, dar as mãos era coisa muito séria. Eles se conheciam desde criança, eram primos e tinham a mesma idade.


Nonna, eu e minha irmã Sirlaine

Namoraram dois anos e, ao completar 30 anos, ela casou com ele, que se chamava Antônio Roldão da Silva. Desse casamento surgiram 4 filhos, Jaime, Maria, José e Jaci. Aos domingos, após a missa, iam dançar no salão da igreja, as mulheres de vestido longo, os homens de terno e gravata. Pessoas de todas as comunidades vinham ao baile. Dançavam até a noite.


Na ocasião dessa conversa que tive com a nona, faziam 36 anos que ele tinha falecido, mas ela ainda sentia saudades. “Ele era romântico e bonito” dizia ela.


Sabemos que a vida era muito difícil. Não tinham tablets, nem WhatsApp. Como se isso fizesse falta! Não tinha nem Luz à noite, a não ser a humilde tentativa de iluminar da pobre lamparina a petróleo, conhecida também por outro nome, pomboquinha.




O dinheiro era pouco, viajavam a pé, literalmente a pé, pois calçar os sapatos, somente na entrada da igreja. Andou de ônibus somente depois que casou. Não podia ter um vestido bonito, nem um sapato novo, e isso a deixava triste.


Perguntamos a ela o que pensava sobre o futuro quando era jovem. “achava que não ia ter muito futuro” respondeu.

Com muito trabalho e dificuldades, ela criou os filhos e os ensinou a importância dos estudos e da fé em Deus nosso Senhor. Até o final de sua vida praticava o hábito da leitura. Era comum encontrá-la lendo revistas, jornais e livros, e engana-se quem acha que ela estava apenas olhando as figuras. Olhando assim, sempre achei que ela tinha sido uma boa aluna.


Me enganei! Quando ia para escola, algumas vezes se escondia no mato até dar a hora de voltar para casa. Mas isso ela não contou, a malandrinha. Quem contou foi sua filha, Maria. Fique sabendo minha querida nona, você não tinha nada a esconder.



Além das leituras, o que me chamava muito a atenção era sua fé. Nem ela sabia dizer quantos terços rezava por dia. Segundo meus primos, eram mais de cinco com certeza.


Tanta fé, vitalidade e carisma deram a Antonia uma vida longa e sem reclamações, uma vida linda e completa, uma vida rica e simples, uma vida admirável, uma vida boa de ser vivida, um exemplo de pessoa, um exemplo de Cristã, um exemplo de mãe e de mulher, de nonna, de bisnona, um exemplo de alegria.


Quanta coisa tinha essa pequena guerreira pra contar... e quem queria ouvir, é só perguntar, que ela lembrava de tudo, sua memória era melhor que a minha e de muitos jovens por aí.


Chegar aos 100 anos com aquela saúde foi realmente um privilégio. Perguntei a ela o que todos queriam saber de quem faz 100 anos ou mais: Qual o segredo para viver tanto? A resposta não será beber dois dedos de vinho diariamente, nem tomar um elixir secreto, nem um chá milagroso. A resposta que ela me deu... foi... Deus! Nas palavras exatas dela: “Deus me deu a sorte de viver esse tempo”.



Isso que você acabou de ler, salvo algumas pequenas retificações para situar melhor no tempo, foi um texto que eu li durante uma missa, em setembro de 2014, em homenagem à minha nonna Antônia Formentin que fazia aniversário de 100 anos.


Deu para ter uma ideia de como era a vida de um filho de imigrante italiano durante o início do século passado. Essa homenagem que fiz a ela, eu quero, hoje, dia 21 de fevereiro, dia nacional do imigrante italiano no Brasil, estender a todos os imigrantes italianos e seus descendentes.


Segundo algumas fontes somos 30 milhões só no Brasil, mas não esqueçamos dos outros, aqueles que foram para os EUA, para a Argentina, para a França e para a Suíça, entre outros países. Cito esses pois foram os que mais receberam os pobres imigrantes de um país que não tinha capacidade de suprir as necessidades de seu povo.



Além desses sobreviventes espalhados pelo mundo, devemos também homenagear os que infelizmente não chegaram ao destino: crianças, idosos e doentes que repousam até hoje no fundo do mar.


Enfim, lembremo-nos que se hoje estamos aqui e somos tão numerosos, devemos isso a coragem e determinação de nossos imigrantes, que sofreram, mas venceram, e em todas as regiões onde fincaram suas pás e enxadas trouxeram desenvolvimento, cultura, honra, amor e muito vinho com polenta e formaggio.


Comente o que achou desse artigo especial e não esqueça de compartilhar com sua família.

2,030 visualizações8 comentários

NUNCA MAIS PERCA UMA POSTAGEM!

Insira seu e-mail abaixo para receber nossas novidades, além de dicas e aulas gratuitas!

Siga-me também nas redes sociais

  • Instagram

© 2019, Silvano Formentin

  • Ícone preto do Facebook
  • Preto Ícone YouTube
  • Ícone preto do Instagram