• Silvano Formentin

Veneza debaixo d'água e suas consequências

Ontem acordamos com a notícia da segunda maior “l’acqua alta” da história de Veneza




O nível das marés de Veneza é registrado desde 1923 e o pior caso já registrado aconteceu em 4 de novembro de 1966, com o marco de 1,94m de água.


Dia 12 de novembro às 22:50h o pico máximo foi registrado em 1,87m, marcando a segunda maior “l’acqua alta” da história veneziana desde o início dos registros.


Um dos pontos baixos da cidade encontra-se na praça San Marco, onde está localizada a Basílica de São Marco. Setenta centímetros de água foram registrados no “nártex” – zona de entrada do templo - e podem provocar danos às colunas do edifício e às placas de mármore.

Isto aconteceu apenas cinco vezes desde sua construção em 828.


Um fator que preocupa as autoridades é que as últimas cinco maiores inundações de Veneza ocorreram nos últimos 20 anos, a anterior em 2018, ou seja, estão ficando mais frequentes a cada ano.


E porque isso acontece?

Mapa demonstrando a posição de Veneza

Bom, caros amigos, Veneza foi construída quase ao nível do mar, e nos últimos cem anos ela afundou 23 centímetros. Além disso existe ainda a elevação do nível das águas devido ao polêmico aquecimento global.


Tudo isso, somado as marés, ao vento, as chuvas e a construção do Polo Petroquímico de Porto Marghera com as escavações profundas de canais de navegação têm aumentado de forma preocupante as inundações nas cidades que estão dentro da grande laguna de Veneza.


O prefeito Luigi Brugnaro declarou ontem à noite (13) estado de catástrofe natural devido aos danos, que serão significativos para cidade. Ainda acrescentou “Necessitamos que todos nos ajudem a lidar com o que é claramente o impacto da mudança climática”.


Além de todos os prejuízos financeiros que, de acordo com a prefeitura, podem chegar a centenas de milhões de euros e da possível perca de patrimônio histórico, duas pessoas morreram até agora, dentre elas um senhor de 78 anos que foi eletrocutado em sua casa na ilha Pellestrina após a água invadir a sua casa, e além disso muitos barcos ainda encontram-se à deriva.


Afinal, os alagamentos constantes em Veneza são normais?


A maré sobe em média cem vezes por ano, especialmente na primavera e inverno quando o Mar Adriático sobe de nível. Esse fenômeno, conhecido como “Acqua alta”, é considerado quando a maré sobe 90mm além do seu normal.


O que pode parecer um fascínio para alguns visitantes, torna-se um inconveniente para os moradores, que tem o ritmo das suas vidas ditado pela maré.


Quando isso ocorre, as autoridades posicionam passarelas elevadas nas principais zonas alagadas da cidade para que os cidadãos possam se locomover com mais segurança.


As portas dos estabelecimentos são seladas com barreiras, é preciso utilizar botas e macacões específicos para andar pela cidade e os barcos não conseguem circular já que o nível das águas os impossibilita de passar debaixo das pontes.


Projeto MOSE

Para proteger a cidade deste tipo de evento e suas consequências, o projeto MOSE (Moisés em italiano e sigla para Módulo Experimental Eletromecânico) está em construção desde 2003. O projeto consiste em 78 diques flutuantes que tem como objetivo serem fechados em caso de maré alta, protegendo a lagoa da inundação.


A primeira data prevista para entrega do projeto era 2011, mas após custos excessivos e diversos escândalos de corrupção a entrega do projeto foi adiada.


O terceiro prazo para entrega do MOSE é 31 de dezembro de 2021. Com um custo inicial previsto de 2 bilhões de euros, em 2018 já haviam sidos gastos 5,495 bilhões e as previsões para entrega do projeto chegam a 7 bilhões de euro.


Mas existe algo talvez ainda pior do que os atrasos na construção, que é a possibilidade de que quando o projeto estiver finalizado não funcione, pois sedimentos trazidos pelas correntes marítimas se acumulam nas estruturas e com o tempo a salinidade do mar corrói o metal que fica submerso.


Além dessa péssima notícia, o custo de manutenção também será altíssimo, estimado em 100 milhões de euros por ano. Pois mensalmente será necessário a retirada de estruturas, sua limpeza e recolocação, para garantir seu funcionamento.


O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, anunciou nesta quinta-feira (14) as primeiras medidas econômicas para ajudar a cidade de Veneza. “No que diz respeito à recuperação de danos os indivíduos e operadores comerciais serão compensados até um limite de 5 mil euros para particulares e 20 mil para comerciantes", explicou o premier italiano.


Centenas de edifícios e monumentos estão danificados devido ao aumento do nível do mar e a situação tem piorado pela escavação dos canais para navegação, fazendo com que a água entre nos canais e aumente sua salinidade. O sal, neste caso é extremamente prejudicial aos tijolos e suportes utilizados para estabilizar os edifícios, danificando sua integridade.


Veneza está na lista de Patrimônio da Humanidade da Unesco e em junho deste ano a organização Itália Nostra entrou com pedido para que a mesma seja colocada na lista de Patrimônios da Humanidade em risco.



O turismo excessivo, o êxodo dos moradores antigos e a degradação ambiental são grandes ameaças para a sobrevivência desta cidade com grande patrimônio histórico.


Será que Veneza irá desaparecer aos poucos, afundando diante de nossos olhos?

300 visualizações1 comentário

NUNCA MAIS PERCA UMA POSTAGEM!

Insira seu e-mail abaixo para receber nossas novidades, além de dicas e aulas gratuitas!

Siga-me também nas redes sociais

  • Instagram

© 2019, Silvano Formentin

  • Ícone preto do Facebook
  • Preto Ícone YouTube
  • Ícone preto do Instagram